Como é ser estagiário?

Na aula de ontem a minha professora falou sobre como é ser estagiário. Me surpreendi porque a maioria dos professores, coordenadores, etc. veem o estágio como uma oportunidade de aprendizagem prática da profissão, assim como as pessoas que trabalham em agências. Mas a verdade é o contrário, e essa professora tinha essa visão realista dos fatos.

Eu já fui estagiário e posso falar disso muito bem. Quando ela tocou no assunto começou um barulho na sala com todo mundo falando ao mesmo tempo, e as pessoas dizendo umas para outras como foi ou como é a sua experiência como estagiário. Então me lembrei do estágio que eu fiz, de 7 meses (que acabou em julho do ano passado). Foi totalmente inútil em termos de aprendizagem e experiência.

Eu pensava que o estágio ia me dar experiência para arrumar um emprego depois, já que a maioria das vagas divulgadas pedia essa experiência. Era assim que eu pensava, porque era assim que eu ouvia falar. Os professores, coordenadores, diretores, faculdades, escolas técnicas, todos divulgam o estágio como essa coisa maravilhosa e necessária. Eu sempre vejo na televisão a divulgação de uma feira de estágio promovida por uma faculdade, e os responsáveis sendo entrevistados dizendo “ah, vagas tem, mas não existem pessoas capacitadas, e o estágio é uma oportunidade do estudante colocar em prática tudo o que aprendeu e adquirir experiência e começar uma carreira profissional”. Isso é conversa pra boi dormir. Primeiro, que o que você vê na faculdade é bem diferente do que você faz na prática. Segundo, a experiência que você ganha não é nas principais atividades da empresa, e sim no resto das tarefas, que não vai ser útil para conseguir um emprego depois.

Eu por exemplo, fiquei no setor financeiro, e trabalhava arquivando notas e outros documentos e dando baixa no sistema. Mas quando eu saí do estágio e comecei a procurar emprego percebi que a maioria das vagas não exige apenas experiência, mas sim experiência em algo específico. Então eu via muitas vagas do tipo: “Auxiliar administrativo com experiência em faturamento”, “Auxiliar administrativo com experiência em contas a pagar e a receber”, “Auxiliar administrativo com experiência em emissão de nota fiscal”, etc. Ou seja, tudo o que é importante é o que os funcionários fazem, e o que eu fazia era o resto dos serviços, o que sobrava. Quando saí de lá comecei a procurar emprego com a mesma dificuldade que tinha antes do estágio, porque ele não me deu experiência nenhuma de útil.

Outra coisa é a forma de tratamento. Tem funcionários que acham que só porque você é estagiário, você tem que obedecê-los, porque eles são superiores a você. Isso é errado, porque o estagiário é nada mais e nada menos que um funcionário que trabalha apenas meio horário e que não tem os mesmos direitos trabalhistas dos funcionários. Não é porque eu sou estagiário que eu tenho que receber e obedecer ordens de funcionários (que têm o mesmo chefe que eu), e que eu tenho que ser desrespeitado.

Não aconselho que façam isso, mas eu não engolia gracinhas dos funcionários, quando me sentia abusado. Não agia como um barraqueiro, eu mantinha a classe, mas respondia e não concordava com tudo. A consequência é que passei a ter gente que não gostava de mim no meu setor. Isso é bem chato, é claro. Tinha dois funcionários que pegavam muito no meu pé. Um deles recebeu a tarefa de ser o “treinador dos estagiários”, mas ele cobrava muito de mim. Eu fazia o máximo que eu podia, dava o meu melhor, eu era muito organizado, e cumpria todas as minhas tarefas diárias, mas ele sempre pressionava, querendo mais, dizendo que eu estava devagar, que eu tinha que melhorar o meu ritmo. Eu ficava triste quando recebia essas reclamações porque eu realmente me esforçava. E quando eu me lembrava que a estagiária que veio antes de mim (a qual eu substituí) era mais desorganizada que eu e deixava as coisas acumularem, eu ficava com raiva, porque eu nunca deixei nada acumular, sempre deixava tudo em ordem e não recebia nenhum reconhecimento, muito pelo contrário, eram só críticas e reclamações. E detalhe: as reclamações eram na frente de todo mundo da sala. Eu não gostava disso, e por isso sempre que dava eu respondia.

Quando eu cheguei lá, tinha MUITA coisa acumulada e eu é quem tive que fazer tudo, porque a outra estagiária não fazia. Lembro que eu passei um mês e meio com ela, e ela sempre parava o que estava fazendo para mexer no celular. Eu nunca fiz isso. Não dá para aceitar reclamações quando você sabe que é melhor do que a outra pessoa que veio antes de você. É uma injustiça.

Tinha também outro funcionário que não gostava de mim, ele tinha uma marcação comigo. Quando eu fiz a entrevista, o dono da gráfica (que era o chefe do setor financeiro) disse que eu podia sair meia hora mais cedo, se chagasse meia hora mais cedo, por causa da hora da minha faculdade (então combinamos que eu iria largar de 5:30h). Mas esse funcionário não aceitava isso e queria que eu saísse de 6 horas. Eu dizia para ele que eu já tinha combinado com o dono e que ia sair de 5:30h. Então ele resolveu procurar o meu contrato no horário da manhã e viu que lá tinha escrito que a minha hora era 6 horas. Ele me disse isso assim que eu cheguei outro dia: “a gente olhou o seu contrato e lá tem dizendo que você tem que lagar de 6 horas”. Mais uma vez, um simples funcionário se achando superior ao estagiário. E esse “a gente” que ele usou, está incluindo o cara que é o “treinador dos estagiários”. Eu disse que não. Então o dono estava escutando isso e disse que eu saísse 15 minutos mais tarde, pelo menos.

Então, concluindo essa parte, o estagiário não tem o respeito, reconhecimento e valor que merece. É tratado como inferior, como burro. Não é porque sou estagiário que mereço ser tratado dessa forma. Eu tenho que ser tratado como um funcionário comum. Eu posso não ter a mesma experiência e conhecimentos que os funcionários antigos, mas estou trabalhando como qualquer outro, então sou digno do mesmo tratamento.

No final, a gráfica resolveu contratar outro estagiário. O “treinador”, que não passava de outro estagiário, que já tinha sido estagiário e depois funcionário, e depois pediu para voltar a ser estagiário porque não tava conseguindo conciliar com a faculdade, começou a me ameaçar de demissão. No começo a conversa era a seguinte: “vai vir um novo estagiário para te ajudar”. Dois meses depois o estagiário novo chegou e ele mudou o discurso. Ele disse que só um da gente ia ficar, e seria quem tivesse o melhor ritmo de trabalho. Por isso se eu não melhorasse o meu ritmo, iria sair. Estávamos no começo de julho, e ele disse que o período de avaliação era de um mês, o que quer dizer que eu estava passando o meu último mês ali dentro, e em agosto iria sair.

Então resolvi sair logo no outro dia. Falei com o dono, expliquei toda a situação a ele, e pronto. Tomei essa decisão porque eu não queria ficar lá mais um mês organizando tudo para depois sair e deixar tudo prontinho para o estagiário novo. E o meu trabalho naquele momento era reorganizar o arquivo, que era um local que eu odiava, porque era muito empoeirado, quente e escuro. Eu tinha que ficar em pé porque nem uma mesa e cadeira tinha. A lâmpada era amarela, e não tinha ar-condicionado. Condições de trabalho ruins. Eu tenho alergia a poeira e quando entrava lá ficava espirrando direto. Não gostava de jeito nenhum de lá. Então eu só ia ficar me atolando lá, para depois de um mês sair. Mas é claro que eu não iria me passar pra isso.

Quando falei com o dono, ele desmentiu o que o cara tinha dito, disse que o plano dele era ter dois estagiários em cada horário e que o “treinador” não deveria ter dito isso e que não estava autorizado. De qualquer forma, não voltei atrás da minha decisão, porque já não tava mais aguentando nada daquilo. E foi bom.

Depois que saí de lá e comecei a procurar emprego, e percebi que a experiência que eu tive não adiantou de nada, porque não era a experiência que as empresas pediam para emprego. Então decidi que nunca mais eu iria fazer estágio novamente. Nunca mais. Porque você não ganha a experiência que precisa, não é respeitado pelos demais funcionários, não é tratado como tal, não tem reconhecimento e é explorado.

E tem situações ainda piores do que a minha, como no caso de que a culpa do que aconteceu de errado vai sempre pro estagiário (“a culpa é do estagiário”), e da forma que as pessoas se referem a você quando estão falando com outras: “é só um estagiário!”, como contou uma menina da minha sala, no momento que a professora começou a falar sobre isso. É só um estagiário sim, mas que merece respeito, até porque somos trabalhadores, somos gente, e NÃO SOMOS IDIOTAS.

Tem um menino na minha sala que fez estágio em duas empresas públicas e também não aprendeu nada útil. Eu tenho uma prima que concluiu recentemente o curso Técnico em Administração, e conseguiu um estágio numa empresa pública, e uma de suas tarefas é levar café para o chefe. Dá para acreditar nisso? Tem duas meninas da minha sala que conseguiram estágio (que exigia que os candidatos estivesse cursando superior em Administração) e o trabalho de uma é ser vendedora numa loja, e da outra, telemarketing. Nada a ver com a área da Administração. Essas empresas só querem estagiários para ter menos gastos, já que o salário é menor e não precisa ter gastos trabalhistas.

Para concluir o post, o meu conselho é: se quiser fazer um estágio faça apenas pensando no dinheiro. Você terá que passar por tudo isso, mas ignore e siga em frente. Mas se você está querendo experiência e aprendizado, ESQUEÇA, CORRA dos estágios, porque eles não vão lhe levar a nada. Você vai querer mais a experiência do que dinheiro, não vai conseguir, vai ficar frustrado e tudo vai piorar quando esses pontos negativos começarem a surgir.

E isso também vale para o programa Jovem Aprendiz. Estágio e Jovem Aprendiz só é bom quando você tem chances reais de ser contratado como funcionário naquela empresa. Mas se não tiver essas oportunidades não valem a pena.

Atualizado em 02/04/2016.
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