Vida e morte

Hoje à tarde eu fui para o enterro do meu avô paterno. Depois que a cerimônia acabou e o seu corpo foi levado para as gavetas, eu pensava sobre a vida e a morte. A vida é rápida. Nos esforçamos a vida inteira para vivermos bem, para sermos felizes e fazermos as pessoas que amamos felizes. Depois tudo acaba. Deixamos tudo e todos. Viramos um corpo inanimado. É diferente de estar dormindo, e a diferença não é a respiração. Alguém morto tem uma aparência fria e descolorada. Falta vida. Sem ela o corpo é feio. A pessoa vira um objeto. E essa comparação com um objeto não é exagerada, já que depois a pessoa é colocada numa caixa de madeira, e depois enterrada, ou então colocada dentro de outra caixa feita de tijolos e cimento, que são as chamadas gavetas. É uma forma mais organizada de lixo, onde os corpos se decompõem e existem mosquitos em toda a parte. O cemitério é dividido por ruas e alas. Em cada gaveta tem o nome do falecido, com sua data de nascimento e de falecimento. São vários e vários nomes. Para você aqueles nomes não significam nada, mas aí você se lembra que a pessoa que está enterrando também vai virar um nome. O caixão é colocado na gaveta, da mesma forma que se guardam objetos em casa ou no estoque da empresa. Depois um homem aparece e começa a colocar um tijolo em cima do outro com cimento para tampar a gaveta. E aquela pessoa, que já não é mais uma pessoa, ficará lá para sempre, e com “para sempre” entenda: até apodrecer e nada mais dela existir.

Na parte administrativa do cemitério todos aqueles corpos devem ser tratados como números. Isso facilita a logística. E mais uma vez aquela pessoa será tratada como um objeto.

Infelizmente é isso o que acontece. Essa é a vida. Passa rápido e não vale nada. Você é jovem e nunca pensa na sua morte. Você é adulto e pensa que vai ficar desse jeito para sempre. A ficha começa a cair quando você é idoso e as dificuldades começam a aparecer, ou quando você fica doente. Depois que você morre, tudo muda. Você não é mais você. O seu corpo recebe o melhor tratamento que os homens acharam para dar. Não existe outra maneira, é assim que deve acontecer. Mas mesmo assim, não passa de um corpo. Para as pessoas que conviveram com aquela pessoa, é muito duro vê-la dentro de um caixão, e depois ver ele sendo tampado, e enterrado ou guardado numa gaveta. É difícil ver isso e difícil de entender como aquilo acontece, já que um dia desses ela ainda estava viva. Você sabe que ele está morto, você sabe que ele não existe mais, mas é tão estranho, porque ela ainda está ali, bem na sua frente, dentro do caixão. Você nunca imagina ter que colocar uma pessoa que você ama dentro de um caixão e depois debaixo da terra, ou dentro de uma gaveta. Mas um dia você faz isso, tem que fazer. É estranho, é ruim, é triste.

E apesar de eu e meu avô não termos tido uma aproximação muito grande, você fica desconfortável nessa situação quando pensa em tudo isso. E fica triste só em ver tantas pessoas tristes e chorando a sua perda, porque para elas é uma pessoa muito querida. O cemitério é um lugar triste e sombrio.

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