E o preconceito com os tímidos nas entrevistas de emprego continua

Eu tô achando você um pouco fechado.

Eu tô tentando imaginar você no atendimento.

Foram essas as frases que ouvi do entrevistador numa entrevista de emprego que fiz há três semanas. Quando recebi a ligação fiquei muito feliz, porque já fazia três meses que tinha colocado currículo em várias lojas do shopping (inclusive nesta) e até aqui nada. Eu tinha deixado de colocar currículos faz tempo justamente por causa das decepções e porque eu tinha passado num concurso e por isso achei que o ideal seria esperar ele chamar. Mas chegou um momento que meus pais começaram a dizer que eu deveria voltar a procurar emprego. Estavam com medo por o tempo estar passando e a Prefeitura não ter chamado ainda (e ainda tem muita gente para ser chamada nesse concurso que eu fiz e o tempo está acabando). Eu já esperava que isso acontecesse durante esse ano de 2017 porque seria o ano que eu estaria completamente sem fazer nada, nem com faculdade eu estaria mais. Eu já tinha tentado outras vezes e eles sabem disso, e não deu certo. Mas, certo, vamos lá tentar de novo. 3 meses se passaram e nada. Já tinha perdido as esperanças quando recebi a ligação do gerente. Era um restaurante de fast food (que não vou dizer o nome para não expor demais, já que esse blog é um lugar público).

Quando cheguei lá tinha eu e mais 6. Ele fez uma entrevista individual com cada um depois mandou responder algumas questões de matemática básica (soma e subtração, com problemas de dinheiro e troco) e responder outras perguntas, algumas delas que ele já tinha feito na entrevista. Na entrevista ele me perguntou sobre minha formação e sobre o estágio que eu fiz. Em determinado momento ele disse: “Estou achando você um pouco fechado. É porque você está nervoso ou é porque você é assim mesmo? Porque às vezes a pessoa fica nervosa na entrevista…” Ele não disse isso num tom de crítica ou de reprovação, mas foi essa a mensagem que ele passou ao dizer essas palavras. Eu já sabia a partir dali que eu já estava desclassificado, que ele não gostou de mim. Engraçado é que eu não estava me achando fechado. Muito pelo contrário, estava me achando aberto. Falei mais do que costumo falar em outras entrevistas, dei explicações que ele nem perguntou e ainda expliquei com certo bom humor de onde veio o meu nome (que ele perguntou, coisa que nunca tinham me perguntado numa entrevista). Estava me esforçando e na minha avaliação eu me saí bem. Mas para ele não. Para ele eu estava fechado.

Depois fiquei pensando porque ele falou aquilo. Demorou muito até eu conseguir ter uma resposta para isso. Talvez tenha sido porque quando ele perguntou se eu gostei do estágio eu disse apenas que gostei, e também quando ele perguntou como era o meu dia a dia e eu disse que era “tranquilo, sou mais caseiro”. O que ele queria mais que eu respondesse? Eu respondi exatamente o que ele perguntou. Provavelmente ele queria que eu dissesse: “gostei do estágio, aprendi isso, isso e aquilo, foi muito bom, uma ótima experiência” e “no meu dia a dia costumo sair, me encontrar com os amigos, jogar bola, jogar vídeo game, etc.”. Fiz essa constatação depois que fiz uma associação entre as perguntas que ele fez e as perguntas que estavam no papel que respondi depois da entrevista. Nesse papel tinha duas perguntas assim: “Fale um pouco das suas experiências. Como elas podem contribuir para a sua entrada em outras empresas?” e “Caso você não tenha experiência, quais suas expectativas para o curto e longo prazo?”. Essa última pergunta inclusive eu já tinha respondido na entrevista. Como a minha única experiência é de um estágio, e que muitas vezes não é contada como experiência de verdade, por não ser na carteira, resolvi responder as duas perguntas. Aproveitei a oportunidade para me expressar melhor e escrever as respostas de forma mais completa do que as que eu tinha dado na entrevista. Mas não adianta. Você pode escrever uma linda redação, mas se a pessoa que está entrevistando não foi com a sua cara, você não vai passar. O que estava no papel era o que o entrevistador queria saber, mas que não perguntou. Quando ele me falou que estava me achando fechado, eu percebi que ele era um extrovertido. Extrovertidos gostam de extrovertidos. Até introvertidos gostam de extrovertidos. Os extrovertidos são demais. Os extrovertidos são os melhores. Os extrovertidos são os únicos capazes de fazer um antedimento atrás do caixa. Quem não for extrovertido não serve, é inútil.

Veja, eu respondi as perguntas da forma que achava que deveriam ser respondidas, e não acho que fiz mal. Só percebi o que ele queria que eu falasse depois de muito pensar, recolhido com minha tristeza, porque até no momento que eu respondi as perguntas do papel eu ainda não tinha percebido isso. Mas aí é que fica: e por que ele não fez aquelas perguntas do papel para mim? Por que ao invés de perguntar “Você gostou do estágio?”, ele não perguntou “O que você aprendeu no estágio que pode trazer para a nossa empresa?”. Eu sei porquê. Porque os extrovertidos respondem a segunda pergunta quando ele faz a primeira. Como os extrovertidos gostam de falar e de se comunicar por natureza, responder uma pergunta que não foi feita mas que pode estar implícita não é nenhum problema. Mas para quem é tímido ou introvertido isso é um problema. Não é que eu só respondi o que ele exatamente perguntou de propósito. Como eu disse, para mim eu estava indo bem, e só percebi que estava indo mal quando ele falou que estava me achando fechado. E eu só percebi o que ele queria que eu respondesse depois de muito tempo e de muito pensar. Passei o caminho todo de volta para casa pensando, e quando cheguei em casa ainda pensei muito para chegar nessa conclusão. Não foi proposital. É porque eu entendo aquilo que é dito, fora o nervosismo da entrevista em si (apesar que eu não estava tão nervoso assim a ponto de me prejudicar por isso). A culpa é dos tímidos? NÃO! Claro que não. A culpa é dos recrutadores e entrevistadores, que têm preconceito com os tímidos, não lhes acham capazes e não sabem fazer uma entrevista com eles.

Se um dia esse post ficar bem visitado e algum entrevistador/recrutador/RH/gerente estiver lendo, quero deixar um recado: APRENDAM a fazer uma entrevista com quem é tímido ou introvertido, pelo amor de Deus! Não esperem que todos se comportem da mesma forma e respondam as perguntas com a mesma facilidade que os extrovertidos. Às vezes você está diante de uma pessoa talentosa, de muito conhecimento e potencial, mas que não lhe dá as respostas que você quer ouvir porque você não fez as perguntas certas. Todo o talento, conhecimento e potencial daquela pessoa podem estar escondidas dentro dela, mas ela não está fazendo isso de propósito, e sim porque ela não sabe se expressar, porque ela é assim, e cabe a VOCÊ, que é o profissional da história e que está trabalhando na área, saber lidar com os variados tipos de pessoas e conseguir tirar delas as respostas que você precisa. Só que é muito mais fácil apenas ignorar os tímidos e ficar com os extrovertidos que falam bonito não é mesmo? Eu já falei disso aqui.

Diante daquela pergunta que o entrevistador tinha me feito, o que mais eu poderia dizer? Não quis fingir e dizer que eu estava nervoso. Disse a verdade a ele: que eu era tímido, mas que com um tempo eu me abria mais. Isso é verdade e é algo que todo mundo que me conhece depois de um tempo sempre me diz. “Jóckisan tu era tão tímido, agora tu ‘melhorou’ muito”. Não meus queridos, eu ainda sou tímido, a diferença é que agora eu já conheço vocês muito bem e me abro mais. É algo natural. Disse ao entrevistador que apesar da minha timidez, ela não me atrapalhava em nada no trabalho. Se eu tiver que atender alguém, vou atender normalmente, e se eu tiver que falar com alguém do trabalho sobre alguma coisa, também vou falar, sem ter medo ou problema nenhum. Então ele disse: “É que a gente tá tendo problema no atendimento das lojas que a gente gerencia aqui no shopping e eu tô tentando imaginar você no atendimento”. Reafirmei o que eu disse. Atendimento não seria problema para mim.

FALA SÉRIO NÉ? Eles estão contratando gente extrovertida para fazer aquele trabalho que não exige nada demais da pessoa? É realmente necessário um extrovertido atrás do caixa para que o atendimento melhore? Você se lembra da última vez que foi a um restaurante fast food se foi atendido com muita atenção e com um sorrido no rosto do atendente? Você se lembra de ter visto ele sendo simpático com você? Não né? Porque o atendimento fica mecânico por causa da rotina do dia a dia e pela necessidade de atender todos os mais rápido possível. Eu posso fazer isso, posso fazer tranquilamente. Se não pudesse fazer, nem o currículo eu teria deixado lá, assim como nunca deixei currículo em empresas de telemarketing, porque sei que nessa área eu não me dou bem. Mas em atendimento presencial e simples, como são os dos fast foods, eu poderia fazer tranquilamente. Mas não, só os extrovertidos são capazes disso. No final ainda disse novamente que a timidez não seria problema, mas estava na cara que não fui convincente.

Fui feliz por finalmente ter aparecido uma entrevista, porque é horrível você espalhar dezenas de currículos nas mais diversas empresas e não receber uma ligação, mas saí triste porque sabia que o entrevistador não tinha gostado de mim e que eu já tinha sido eliminado por causa da minha personalidade. Minha personalidade… Personalidade não é algo que você consegue mudar. Você consegue melhorar os seus defeitos e consegue desenvolver novas habilidades, mas a sua essência continua a mesma. E é a minha personalidade, um dos motivos de eu não conseguir passar numa entrevista ou dinâmica (o outro motivo é falta de experiência). Eu não fico me culpando ou perguntando: “Por que eu sou assim?” ou “Deus, porque o Senhor me fez assim?”, porque sei que não sou anormal. Sei que não sou o único tímido/introvertido da Terra. Sei que existem vários tipos de personalidade. O problema é do mundo, que tem em sua cultura “o ideal da extroversão” (pegando aqui emprestado o termo usado por Susan Cain em O Poder dos Quietos), o que quer dizer que se pensa que as melhores pessoas são os extrovertidos. O problema disso tudo é que se eu depender de emprego, nessa situação nunca vou conseguir. Se eu dependesse apenas de emprego para sobreviver, hoje estaria passando fome e morando na rua (ainda bem que tenho os meus pais hehehe). Ainda bem que eu passei num concurso. Foi graças a Deus que isso aconteceu, porque eu tenho dificuldade de estudar leis, tenho dificuldade em matemática, e já estou de saco cheio de estudar português (achava que só iria ver essas matérias até o Ensino Médio). Ganhando pouco ou não, é isso o que consegui e dou graças a Deus, até porque não estou conseguindo passar em outros concursos. Demorando para ser chamado ou não, eu tento manter a esperança e a fé de que eles irão me chamar. E tem que ser assim mesmo, porque se for depender de emprego em empresa privada… estou atolado, porque o preconceito com os tímidos nas entrevistas de emprego continua.

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E o preconceito com os tímidos nas entrevistas de emprego continua

Preconceito com os tímidos

Eu acredito que exista preconceito com os tímidos, principalmente em se tratando de seleções de empresas. Acredito tanto nisso, e esse é um pensamento antigo meu, que pensei até que já tinha postado aqui um texto sobre isso. Mas procurei e não achei. Por que eu acho que as empresas, os recrutadores e entrevistadores que fazem as seleções de candidatos para emprego têm preconceito com tímidos? Baseado nas minhas próprias experiências, é claro.

Quando eu tinha 14 anos fiz a minha primeira entrevista. Foi para um estágio numa confecção, na época que eu tinha acabado de fazer o curso de Técnico em Têxtil do Senai. Esse estágio era para trabalhar na área de serigrafia, que é um tipo de estampa. Fiquei feliz porque dentre tantos alunos eu fui o escolhido pelo Senai para fazer a seleção. Algumas colegas de classe também conseguiram entrevistas para outras empresas, mas da minha turma, que tinha 20 pessoas, a minoria foi que conseguiu fazer entrevista. Fora a turma da tarde. Nessa empresa que eu fui, eu ia fazer a entrevista para estagiar de manhã, e um aluno que tinha feito o curso à tarde, fez a entrevista para estagiar à tarde. Ele ficou, e eu não. Eu tinha uma colega na minha sala que conhecia o menino da tarde, e ela pediu para ele perguntar ao chefe porque eu não tinha sido chamado. O que o chefe dele respondeu foi que eu não fiquei porque eu era muito tímido. Que eu saiba, o chefe não pediu para o Senai enviar outro aluno para fazer a entrevista, porque ninguém na minha sala comentou nada sobre fazer entrevista, e ninguém da turma da tarde mudou o horário da escola para conseguir conciliar com o horário do estágio que seria meu, que era pela manhã. Ele preferiu ficar só com um estagiário à tarde do que ter dois o dia todo, porque um deles era tímido demais. E tímidos, sabe como é né? Não prestam para nada.

Passaram os anos até que eu conseguisse fazer mais uma entrevista. A outra que eu fiz foi para outro estágio, só que dessa vez para a faculdade de Administração. No dia da entrevista eu fui o primeiro a chegar. O segundo a chegar, chegou só um pouco depois de mim, e puxou assunto comigo e começou a falar, falar e falar. Ele falava muito, mesmo sem me conhecer. Ele tinha 22 anos (e eu tinha 18), e disse que já tinha trabalhado de vendedor numa concessionária e tinha se formado em Gastronomia. Agora estava fazendo Administração e disse que queria abrir um restaurante um dia. Ele tinha cara de ser filho de rico. Então fui chamado para a entrevista e achei que me saí bem. Mas depois não fui chamado para ficar no estágio.

Um mês depois, quando eu já não tinha mais esperanças, o dono da empresa me ligou mandando eu ir lá no outro dia para começar o estágio. Fiquei muito feliz, porque finalmente tinha conseguido um estágio! Agora, como eu ganharia experiência, conseguiria arrumar um emprego depois, ou quem sabe ser aproveitado na própria empresa, depois que o tempo do estágio passasse! Doce ilusão. Mas não é disso que quero falar. Quando eu cheguei lá, descobri que não fui o primeiro a ser chamado (e por isso que demorou um mês para o dono da empresa me ligar), e que antes de mim já tinha vindo outro estagiário que só passou duas semanas e saiu porque não aguentou, segundo os funcionários. Os funcionários disseram que ele era legal, mas que falava muito, que ele parava de trabalhar para ficar conversando, que não conseguia se concentrar em nada. Eles deram outros detalhes que me fizeram confirmar que esse rapaz era o mesmo que tinha puxado assunto comigo no dia da entrevista. Aí, como ele saiu, me chamaram para ficar no lugar dele. Pois é, chamaram o extrovertido, o falante, aquele que conseguiu impressionar o dono da empresa com suas muitas palavras bonitas durante a entrevista. E eu, que só respondi as perguntas e não surpreendi em nada não fui chamado de primeira, fui a segunda opção, mas só porque o primeiro não deu certo. Daqui eu tiro uma lição: nem sempre o extrovertido é a melhor opção. Eles sempre falam mais, e aparentam ser mais espertos e desenrolados, mas olha aí esse caso. Eu, que era tímido, fiquei os 6 meses do estágio (na verdade, 7), e só saí porque o “treinador dos estagiários” não gostava de mim por algum motivo e ficava me ameaçando de que eu iria embora (o que o dono da empresa depois me disse que era mentira). Não aguentei essa pressão psicológica e saí. Mas o trabalho em si, eu fazia bem (tirando a parte que eu tinha que ir para o arquivo, que era todo empoeirado e me fazia espirrar muito, por causa da minha alergia). Mas os entrevistadores sempre são enganados e atraídos por quem fala mais alto e se mostra mais desinibido. Ser extrovertido é sempre sinônimo de ser desenrolado, de ser esperto, de ser ágil. E ser introvertido é sinônimo de ser enrolado, meio burro e lento. O detalhe é que o dono da empresa não parecia ser extrovertido. Ele era do tipo calmo e de poucas palavras.

Eu tive uma professora na faculdade que era psicóloga (infelizmente, não para ensinar psicologia na minha turma), e perguntei a ela se as empresas tinham preconceito com os tímidos. Ela, que além de trabalhar em clínica e ser professora, também fazia seleções para empresas que contratassem a consultoria onde ela trabalhava, disse que não. Disse que o candidato só não se encaixa no perfil que a empresa pede. Ela disse que muitas vezes vê um candidato ótimo, mas que não se encaixa no perfil da empresa, e ela acha isso uma pena. Mas acho que o perfil que as empresas pedem é que as pessoas sejam extrovertidas. Claro que eles não vão usar essa palavra e deixar tudo tão claro desse jeito, mas as palavras e qualidades que eles exigem de um candidato são coisas que geralmente só os extrovertidos têm, ou que eles se saem melhor demonstrando isso numa entrevista. Por exemplo, uma empresa que diz que quer pessoas que saibam se comunicar, que sejam dinâmicas e que sejam proativas (vi muito disso quando procurava emprego na internet) é o mesmo que dizer: “queremos extrovertidos”.

Eu ainda cheguei a participar de duas seleções para uma grande loja de roupas, que está em todo o Brasil. Essa seleção tem 3 fases: a primeira é uma prova de raciocínio lógico e matemático, e uma redação; a segunda é uma dinâmica; e a terceira é uma entrevista com o gerente. Nas duas vezes que fiz seleção nessa loja (e para trabalhar como auxiliar de loja, arrumando as roupas lá), fui reprovado na dinâmica. Na segunda vez a dinâmica foi uma apresentação, onde a pessoa respondia algumas perguntas que estavam escritas no quadro. Nessa dinâmica não sei exatamente porque não passei, mas na dinâmica da primeira seleção ficou muito claro. A seleção foi assim: a recrutadora jogou no chão várias peças feitas com aquele papel emborrachado (pesquisei agora e descobri que o nome daquilo é EVA) que tinham a forma de círculos, quadrados e triângulos de várias cores. Cada um deveria pegar uma dessas peças. Depois, de acordo com a figura ou a cor que cada um pegou era formado um grupo de 4 pessoas (não lembro exatamente qual era o critério) para que com essas peças a gente pudesse formar uma figura. O objetivo era ver a criatividade de cada um. Aí eu pergunto: aonde que vou precisar ser criativo para ser um auxiliar de loja de roupas? Esse é um trabalho bem operacional, você vai passar o dia todo organizando a loja. Não precisa ser criativo para isso. Voltando alguns minutos antes da dinâmica, eu e os outros candidatos estávamos na sala de Atendimento ao Cliente, todos sentados esperando sermos chamados para ir para a sala interna da loja, onde é feita a seleção. Enquanto todo mundo esperava tinha um cara que não parava de falar. Eu estava do lado dele. Ele era engraçado e legal (como a maioria dos gays, sem querer estereotipar). Voltando à dinâmica, naquele momento ele se saiu muito bem. Ele era criativo, e falava alto, o que chamou a atenção da mulher do RH e do supervisor. Depois que cada um formou a sua figura e os recrutadores olharam, eles mandaram todo mundo juntar as peças para formar uma grande figura. Esse mesmo rapaz foi quem teve a ideia de fazer uma flor gigante e que saiu coordenando tudo, dizendo, “bota aqui, ali, isso, vai, aê!”. Depois a mulher do RH e o supervisor saíram da sala para escolher quem ia passar dessa fase e ir para a próxima. Esse rapaz ficou. Claro, eu não o julgo, ele fez por onde, se saiu bem nos testes, se mostrou criativo, se mostrou ser o que os recrutadores queriam. Mas eu (junto com a maior parte das pessoas que estavam lá) não fui escolhido. Não fui escolhido porque não falei alto para chamar a atenção, porque não tive boas ideias para montar uma figura, porque não me mostrei engraçado e nem criativo. Todas essas são características importantes para desempenhar o seu trabalho, mesmo que ele seja algo básico e operacional, e é por isso que as empresas fazem esse tipo de dinâmica, para saber quem é merecedor de trabalhar lá (estou sendo irônico). Se você não teve a “sorte” de nascer assim, ou se não for um bom ator, não conseguirá oportunidades na vida. Talvez se eu falasse mais alto para ver se chamava a atenção dos recrutadores, talvez se eu fosse mais criativo, talvez se eu fingisse ser engraçado e extrovertido eu conseguisse passar. Mas sabe, mesmo que eu tente, eu não consigo fingir ser quem eu não sou.

É por tudo isso que eu acredito firmemente que existe preconceito com os tímidos, um preconceito velado, que ninguém admite, mas que está lá. Não é que nenhum tímido não consiga um emprego ou não seja capaz de passar numa dinâmica. Tudo depende de pessoa para pessoa. Tem tímidos mais tímidos que outros. Tem testes mais fáceis que outros. Tem recrutadores que podem ser mais abertos que outros (quero acreditar nisso). Mas o preconceito, de um modo geral, existe. Ele existe na própria sociedade, e também nas empresas, que é onde eu mais venho sentido.

Tem também mais um caso, dessa vez de uma entrevista que fiz para um restaurante fast food, e não faz muito tempo, foi só há 3 semanas. Mas esse caso específico eu vou tratar no próximo post.

Preconceito com os tímidos

Vida

Engraçado esse negócio de vida. Você vive a sua vida, e ela se torna o seu mundo. Você sai, vai para outro lugar, e a sua vida anda, continua, enquanto a de outra pessoa talvez não esteja movimentada assim, por ela estar em casa ou num hospital. Mas ninguém pensa nisso. Você pode estar num ônibus, cheio de gente, e todos indo trabalhar, mas você pensa só no seu trabalho, nas suas tarefas, nos seus colegas, no seu chefe. Você só pensa no seu mundo. Você pode conviver com uma pessoa, seja ela seus pais, filhos, esposa ou marido, e mesmo que você saiba tudo sobre eles, quando você se separa deles e cada um toma o seu destino para a sua rotina diária, cada um se volta para seu próprio mundo, sua própria vida, onde terão suas próprias experiências, diversões e problemas.

Era domingo, mais ou menos 7:30 da manhã e eu estava dentro do ônibus, indo ao meu destino. No meio do caminho passei por um campo de futebol que ficava dentro de uma praça. Tinha várias crianças lá, brincando. Eu fiquei me perguntando de que horas aqueles meninos se acordaram. Em pleno domingo, eles devem ter se acordado às 6h da manhã, talvez tenham tomado café, e então foram para o campinho, onde tinham marcado uns com os outros para estarem ali naquele dia e naquele horário (ou talvez esse encontro seja diário). Talvez eles fiquem tão ansiosos por isso, que não se importam em acordar cedo num domingo. Talvez eles já estejam acostumados a acordar cedo sempre. Talvez aquele encontro e aquela brincadeira sejam tratados como campeonatos, onde eles disputam uns com os outros e podem ter o gostinho de ser um grande jogador que acabou de ganhar o troféu, depois de ter vencido o jogo.

Vi um menino correndo atrás da bola. Enquanto o ônibus passava rapidamente por esse trecho, tentei me transportar para a mente dele, para o mundo dele. Então me vi correndo rapidamente atrás da bola, pronto para passar para outro, e depois fazer o gol. Fizemos o gol, gritamos, nos agarramos e comemoramos. Parei um pouco para descansar quando vi na pista vários carros e ônibus passando. Eles andavam bem rápido. Num dos ônibus, que era vermelho e estava cheio, consegui ver um rapaz bem magro em pé, se segurando com uma das mãos num ferro vertical do ônibus e com a outra num dos bancos. Ele parecia sério e com um olhar distante. Isso durou uns dois segundos só, enquanto o ônibus passou a toda velocidade. Depois ouvi alguém me chamando. Eram os meus amigos mandando eu voltar para a minha posição para retornamos o jogo.

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Eu acho que isso é uma crônica. Sim, tive esses pensamentos quando passei pelo campo no ônibus no domingo de manhã, e assim que os tive pensei em escrevê-los e pensei que seria uma crônica. Pesquisei mais uma vez pelo conceito de crônica, dessa vez no YouTube, e parece que ficou mais claro para mim, mas não totalmente, porque cada um dá uma definição diferente. Por isso não tenho certeza se isso é ou não uma crônica, mas de qualquer forma vou considerar que sim para a marcação de categorias e tags desse post.

Vida

Resumo de domingo

As provas

Ontem fui fazer o concurso pela qual tanto me preparei. A sensação é que eu não me preparei em nada. As provas (fiz duas, uma de nível médio e uma de superior) estavam difíceis. Nos últimos meses eu estava estudando em casa com umas vídeo-aulas que um colega passou para mim (que outra colega dele tinha comprado e baixado). Alguns assuntos que caíram na prova eu não vi nesses vídeos, e outros eu vi, mas não no nível de detalhes que a pergunta queria. Estudar Direito é um mundo de coisas que parece não ter fim, e por mais que você estude, ainda vai ter coisas que não sabe, e coisas que os professores não dizem porque eles falam apenas o que mais costuma cair em prova (o que já é muita informação por si só). Acho que não tenho chance, e isso é desanimador.

Atualização 17/10/2017: saíram os gabaritos e eu acertei só 19 questões de cada prova (que tinha 50). A pontuação mínima era de 50%, então já estou desclassificado. :/

O caminho de ida

No caminho, vi uns meninos jogando bola num campinho, e então tive um pensamento sobre a vida. Eu fiz um post específico sobre isso.

Fortes emoções

Na prova da manhã vivi fortes emoções nos últimos dois minutos, quando eu ainda tinha as 50 questões para marcar no gabarito. Esse gabarito não era de círculos, como costuma ser, mas sim de retângulos. Eu consegui marcar apenas 7 questões quando acabou o tempo. Me perdi no tempo. Isso nunca tinha acontecido antes, nem mesmo no Enem, que é cheio de questões que são bem longas.

Olhei na sala e só tinha eu e mais dois. Um deles entregou e ficou só eu e outro. Eu olhei para a moça e perguntei se eu não podia apenas marcar o gabarito. Ela olhou para a porta e disse: “Eita, a coordenadora acabou de passar ali. Não precisa preencher tudo não, faz só um traço, rápido!”. Aí eu disse: “Mas a máquina vai conseguir pegar se for só traço?” e ela disse que sim. Então fiz, e enquanto fazia os traços ela ia dizendo “isso, isso, vai, vai!”. Fortes emoções mesmo! Só tenho minhas dúvidas se esses traços serão considerados pela máquina na hora da leitura, porque pelo que sei, não pode. Os quadrados (ou círculos) devem ser totalmente preenchidos. Acho que já posso me considerar desclassificado dessa prova da manhã. Mas mesmo assim fiquei agradecido pela fiscal ter sido legal comigo e ainda ter me dado essa chance, que foi melhor do que entregar o gabarito só com 7 questões marcadas, e aí sim, ter a total certeza de que fui desclassificado (e agradeci a ela no final, claro).

Na prova da tarde me orientei e tomei juízo, e marquei o gabarito antes de começar a redação. Pela contagem do tempo que a fiscal (outra fiscal, porque essa prova foi em outro lugar) dizia, eu demorei meia hora só marcando os quadradinhos. Negócio demorado, viu! A redação consegui acabar faltando dois minutos, em cima da hora, mas dessa vez não foi um vexame como de manhã. Apesar que fiz com pressa, senão não teria dado tempo de novo.

Resumo de domingo

Tirinha - Charles Schulz - Peanuts

Fonte: Depósito de Tirinhas (por Charles Schulz www.peanuts.com/)

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Comentário 1: Às vezes é só o que nos falta né? Um elogio ou um amor…

Comentário 2: Esses dois primeiros quadrinhos representam o meu ânimo de vida ultimamente. É ruim quando tudo o que você faz parece não dar certo.

Comentário 3: Essa tirinha é beeem antiga. Olha os traços dos personagens como eram diferentes dos de hoje! (para quem não reconheceu esse aí é Charlie Brown, o personagem principal de Peanuts, junto com Snoopy).

Imagem

Bem, nenhuma vida parece gratificante se pensarmos muito nela.

Querida, a vida é um conjunto de problemas que tentamos resolver. O primeiro, então o próximo e o próximo… Até que, finalmente, morremos.

– Violet, no episódio 8 da 4ª temporada de Downton Abbey.

Citação - Donwton Abbey - A vida é um conjunto de problemas - Violet

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Essas citações combinam com a outra que essa mesma personagem falou e que postei aqui há um tempo (há exato 1 ano. Me surpreendi quando vi que já faz 1 ano que postei aquela citação aqui rs. O tempo voou!).

A primeira citação é uma verdade. Estamos sempre querendo mais e mais, mesmo se já tivermos muito. A segunda citação é um pouco triste e mórbida, mas tem lá o seu fundo de verdade.

Citação

Escrever ficção

Quando eu era criança não sabia exatamente o que queria ser quando crescer. Eu não conseguia pensar em nada, não me identificava com nada. Talvez já daquela época já estava dentro de mim o “não amar o que faço“. Às vezes me imaginava como motorista de kombi ou de ônibus, porque eu sempre saia com a minha mãe e via eles dirigindo. Por ironia do destino, hoje eu tenho minha carteira, mas não gosto de dirigir. Acho cansativo você ficar com os braços estendidos e apertando pedais com os pés (que também ficam meio doloridos) e ter que ter atenção em 1001 coisas ao mesmo tempo.

Mas eu sempre gostei de ler. Adorava ler as histórias infantis que vinham nos meus livros de português no primário. Meus pais nunca me estimularam a isso, e por isso eu nunca tinha lido um livro. A primeira vez que li um livro de ficção foi no Ensino Médio, e o livro foi Senhora, de José de Alencar, porque a professora de Literatura mandou (apesar que fui um dos únicos da turma que li o livro inteiro). Não foi uma ótima experiência, porque livros clássicos da literatura têm uma linguagem antiga e formal. Foi só depois de ler Senhora e Dom Casmurro, que fui na biblioteca e consegui pegar o livro Diário de um Banana, uma série de livros infanto-juvenis ilustrado que tava fazendo sucesso na escola porque todo mundo queria ler. É um livro bem legal (e engraçado também). Foi ele que me fez descobrir esse mundo de ficção dos livros, e saber que ler livro pode ser tão bom quanto assistir a uma novela ou um filme, porque ele provoca sentimentos e reações parecidas, como ansiedade pelo que vai acontecer, por exemplo. Depois de Diário de um Banana li A Menina Que Roubava Livros, que é um ótimo livro, por sinal. E dali em diante passei a ler mais livros (hoje infelizmente menos do que eu gostaria).

Quando eu tinha 12 anos e estava na 6ª série (atual 7º ano) disse para mim mesmo que queria ser escritor quando crescesse. Eu nunca tinha lido um livro nesse época, e não sabia qual tipo de livro eu gostaria de escrever. Um de ficção provavelmente, porque eu ainda gostava de ler aquelas histórias que vinham nos livros de português. Quando ganhei meu primeiro computador, com 13 anos, escrevi algumas histórias (que seriam “contos”, na linguagem certa), de 2, 3 e 4 páginas. Elas se perderam numa das várias vezes que o computador deu defeito e teve que ser formatado.

Passaram-se os anos e a vontade de escrever e o sonho de escrever um livro continuam. Às vezes penso que poderia escrever um livro de ficção, às vezes também penso em escrever um livro sobre um tema qualquer (que exigiria algum tipo de estudo aprofundado, que pode demorar anos, baseado nos livros que eu já li desse tipo). Eu espero que eles se tornem realidade um dia. O que eu consegui durante esse meio tempo foi ter blogs, onde posso compartilhar conhecimento, experiência e opiniões. Não é um livro, mas faz parte do “gostar de escrever”.

No caso do livro de ficção, o problema é que eu não tenho criatividade. Com 12 anos eu disse que queria ser escritor, mas percebia que tinha dificuldade em escrever redações narrativas quando a professora de Redação mandava. Eu não tinha ideias. E quando eu estava no 1º ano do Ensino Médio a professora de Redação/Português/Literatura mandou todo mundo escrever um livro, e esse foi um trabalho sofrível para mim (e foi aí que eu senti falta de nunca ter lido um livro de ficção antes).

Do fim do Ensino Médio para cá eu tentei escrever alguma coisa de ficção, seja contos ou quem sabe o início de um livro. Eu tenho ideias, e então começo a escrever, mas depois de umas 4 páginas, paro, porque não sei mais desenvolver a história. A ideia que eu tenho dela é só o começo e o fim, mas todo o meio não. O desenvolvimento de um primeiro capítulo longo e cheio de detalhes, não. Fico triste por isso, porque realmente gostaria de escrever algo de ficção. Talvez seja a minha personalidade muito racional que tira de mim a criatividade necessária para essa atividade. Mas vou continuar tentando. Posso começar com contos ou crônicas¹, até ganhar alguma consistência nelas, e quem sabe um dia eu consiga escrever um livro.

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¹ Já pesquisei muito a diferença entre eles e não consigo entender bem. Às vezes quando tenho alguma ideia não sei em qual dos dois ela se enquadra, e aí eu só chamo de “narração” mesmo. 😛

Escrever ficção